A falsa "Guerra às drogas" que acontece no Brasil

Informática

Culinária

Moda

Games

Automóveis

Viagens

Interessante

Música

Cinema

Meio Ambiente

Relacionamento

Política

Saúde

Dicas Diversas

A falsa “Guerra às drogas” que acontece no Brasil
Por Camila Naxara | Publicado em 30 de maio de 2021 ás 16:20

A segurança pública dos brasileiros é, sem dúvida alguma, afetada pela guerra às drogas, mas provavelmente não da forma que você pensa.

Você, com certeza, conhece alguém usuário de drogas. Um amigo ou um conhecido que faz uso de maconha ou outras drogas. Já se perguntou como essa pessoa consegue comprar com tanta facilidade? Já se perguntou por que está cada dia mais fácil o acesso às drogas?

Mesmo com tantas apreensões realizadas pela pm, em cima de muita violência e morte de inocentes, por que ainda é tão fácil comprar drogas no Brasil?

Guerra às drogas

A Guerra às drogas ajuda o crime organizado

Talvez você imagine que a apreensão de drogas e traficantes por parte da segurança nacional, como acontece no país, acabe enfraquecendo o tráfico, mas não é o que acontece de fato.

Pelo contrário, estudos de diversos países, têm mostrado que quando traficantes e quantias enormes de drogas são apreendidos, o tráfico só é fortalecido. A apreensão só faz diminuir a oferta do “produto”, entretanto sua demanda continua intacta.

É exatamente por isso que o número de viciados em drogas no EUA se manteve constante nos últimos 50 anos, mesmo com grandes investimentos no combate ao tráfico de drogas.

Depois de uma apreensão, o preço da droga aumenta e consecutivamente a margem de lucro sobe, favorecendo os grandes traficantes.

Com margens de lucro maiores, estes podem financiar novas compras de armamento, investir em tecnologias para despistar a polícia (ou propina para comprá-la) e distribuição de mais drogas.


117 Fuzis foram apreendidos em condomínio de luxo no RJ

E este é o grande paradoxo da guerra às drogas!

O que se vê no Brasil, atualmente, é que ao combater o tráfico, preferencialmente nas favelas, o estado, de certa forma, permite que os traficantes mais poderosos, que moram em condomínios luxuosos, continuem no mercado.

Quem ganha é o crime organizado, porque a ação estatal acaba por beneficiar os grandes cartéis e facções criminosas da concorrência. O resultado disso é o que você mesmo pode observar: as drogas cada vez mais presentes na vida das pessoas.


O que os estudos mostram

Nenhum Estado do mundo consegue combater todos os traficantes de seu país. Logo, se existe demanda, as drogas continuarão “disponível no mercado”. Mas então o que sugere os estudos?

De acordo com o vencedor do prêmio Nobel de Economia, Gary Becker, após o fim da proibição de fabricação, comércio, transporte, exportação e importação de bebidas alcoólicas, em 1933, os mafiosos se viram praticamente expulsos do mercado de álcool.

Muitos estudos mostram que com a descriminalização da maconha, por exemplo, aconteceria o mesmo com os traficantes. E, de fato é o que vem acontecendo nos EUA após vários estados legalizarem o uso medicinal e recreativo da erva.

Entre 2003 e 2013 o tráfico de maconha na fronteira México-EUA havia crescido absurdamente e a ONU estimava que cartéis mexicanos respondiam por 60% de toda a maconha consumida pelos americanos.

No entanto, a partir de 2013 o estado do Colorado foi o primeiro a legalizar a produção e consumo da maconha para fins recreativos. E adivinhem só o que aconteceu?!

O preço da maconha no mercado ilegal mexicano despencou 70% e as apreensões de maconha na fronteira caíram 80%. Afinal de contas, com a maconha legalizada já não compensava exportar a droga e concorrer com os produtores legais dos EUA.

Além disso, notou-se a diminuição da quantia de crimes em vizinhanças que possuíam dispensários (lojas) legalizados de maconha, onde o mercado ilegal até então dominante, diminuiu significativamente.

Outra vantagem da legalização é secar a fonte bilionária de recursos do tráfico, que financia a corrupção de agentes públicos e exércitos paramilitares.


1. A legalização pode ajudar a segurança pública

Obviamente recursos são escassos, logo, cada centavo e tempo investido numa atividade não poderá ser investido em outra. Sob o mesmo ponto de vista, todo tempo e dinheiro investidos no combate às drogas são recursos que o Estado poderia direcionar para áreas importantes e que já mostraram ser realmente efetivas.

Em Londres (2014), a polícia fez um experimento. Por um certo período, deixou de combater o tráfico de maconha no bairro de Lambeth e o resultado foi a diminuição da violência e maior eficiência da polícia no combate a outros crimes.

Já em 2017, quatro pesquisadores da Universidade de Bolonha, na Itália, estudaram a situação de dois estados americanos: o estado de Washington e seu estado vizinho, Oregon.

Dois estados culturalmente similares, mas com políticas públicas diferentes. Washington optou pela legalização da maconha, enquanto Oregon optou pela criminalização, ambos durante um referendo.

Comparando os dois estados vizinhos, os pesquisadores concluíram que a legalização não alterou a quantia de homicídios, porém o número de estupros e roubos caíram sensivelmente em Washington.

Todo o dinheiro gasto em políticas de guerras às drogas e a quantidade de imposto que o Estado deixa de arrecadar com a ilegalidade, poderia ser investido em educação, saúde e políticas públicas realmente efetivas na segurança.

Para controlar os problemas sociais causados pelo uso excessivo de drogas, o Estado precisaria oferecer acesso a educação de qualidade, criar políticas de conscientização e de tratamento aos dependentes, programas de terapia gratuita e investir em esporte para os jovens.


2. O fim da guerra às drogas aqueceria a economia

Justamente por ser um mercado ilegal, é difícil avaliar o valor ($) que deixaria de estar na mão do tráfico e passaria a abastecer o mercado legal. Mas, pesquisas apontam que apenas com a maconha nas áreas cosmética, recreativa e medicinal o montante chegaria a 45 bilhões de reais em 10 anos.

Nos Estado Unidos, por exemplo, já existem os bilionários da indústria da maconha e o esperado é que o mercado mundial da erva movimente cerca de 194 bilhões de dólares em 5 anos. Além disso, 1 milhão de empregos podem ser gerados se a planta for legalizada no país inteiro.

Só para ilustrar, o Líbano liberou o uso de maconha medicinal de olho na arrecadação de impostos. O estado do Colorado, EUA, primeiro a legalizar a maconha, já arrecadou mais de 1 bilhão de dólares em impostos sobre a maconha.

No Uruguai, o tráfico de maconha proveniente do Paraguai e o comércio ilegal da erva caíram cinco vezes, segundo um estudo do governo.

Com a legalização, o Brasil arrecadaria anualmente cerca de 5 bilhões de reais em impostos, ao mesmo tempo, reduziria em 1 bilhão de reais os gastos com o sistema prisional. Estes recursos poderiam estar abastecendo a economia e reduzinhos os problemas sociais ao invés de nutrir uma guerra às drogas sem fim.


3. O uso medicinal da cannabis

Por muito tempo a pesquisa para o uso medicinal de drogas ilícitas era proibida. Em suma, convenções internacionais e nacionais impediam que cientistas pudessem obter a droga para pesquisa.

No entanto, editores da revista Scientific American publicaram um manifesto em 2014, pedindo o fim da proibição. Além disso, pediram a permissão para pesquisarem a maconha, LSD, ecstasy e outros psicoativos.


Guerra às drogas

Ao que parece, a pressão por parte dos cientistas surtiu efeito e muitos estudos foram realizados, nos últimos anos.

Sabe-se que quando fumada, a erva demora apenas alguns minutos para provocar efeitos como: euforia, distorções do tempo e espaço, senso de organização do próprio corpo e maior facilidade de socialização.

Quando usada sem controle pode causar desorganização dos processos mentais, distúrbios de memória, falta de atenção e dependência. Afinal, como se trata de um produto ilegal, não se tem controle da produção e, por conta disso, muitas outras substâncias são adicionadas propositalmente.

Apesar dos malefícios do uso descontrolado, estudos também comprovaram que o uso em pequenas doses, faz bem para pacientes com dores crônicas, glaucoma, epilepsia, espasmos musculares, desordens alimentares e muitas outras doenças.


4. A imoralidade do Estado

É claro que o consumo de drogas pode gerar prejuízo à vida do usuário, no entanto não é papel do estado tutelar comportamentos da vida privada de alguém, e sim de educar e oferecer apoio. A guerra às drogas retira inúmeras liberdades civis e gera morte de muita gente inocente.

O Estado coloca o traficante e o usuário de drogas no mesmo patamar, como criminosos; que são presos, superlotando presídios. Ademais, a comunidade é que “paga o pato”, afinal, crianças são atingidas e mortas por balas perdidas, vítimas inocentes de tiroteios aleatórios entre a polícia e o tráfico.

Não tem cabimento o Estado admitir o risco de balear inocentes só para impedir a escolha das pessoas que optaram por usar drogas. Além do mais, sabemos bem que quando um traficante é preso ou morto, logo outro ocupa seu lugar.

É um mercado que movimenta BILHÕES, portanto, é falacioso acreditar que matando e prendendo pessoas, as drogas irão acabar.

Consumo de maconha no mundo

5. O racismo tem ligação direta com a guerra às drogas

Vemos no decorrer da história da maconha que a proibição advém do racismo.

Um dos principais advogados da proibição da maconha no Brasil em 1915, o médico Rodrigues Dória, sem argumento científico algum e munido de um racismo sem fim, afirmou que os negros escravizados trouxeram a maconha para o Brasil como forma de vingança pelo roubo de sua liberdade.

Dizia também que os negros usavam a maconha para produzir alucinações e gerar movimentos em danças selvagens de suas reuniões barulhentas. A elite usava a proibição da maconha para atacar as religiões de matriz africana.

Ainda hoje vemos o racismo que perpetua na guerra às drogas. Por um acaso você já viu a polícia entrar atirando ou descendo o cassetete nas festas regadas a drogas em bairros de luxo?

O que o Estado demonstra com essa política de guerra às droga, é que o problema não é ser usuário, o problema é ser preto e pobre. Afinal, são anos combatendo às drogas e as mesmas continuam fortemente presentes em nosso cotidiano.

A Guerra às drogas, além de não ser eficaz, tem sido um mecanismo legal, usado para oprimir e discriminar as classes mais baixas da pirâmide social.


Guerra às drogas
A carne mais barata do mercado é a carne negra.

A lei brasileira de combate às drogas já se mostrou ineficaz e confusa. Você sabia que não há critérios objetivos referentes a quantidade de droga que uma pessoa pode portar?

Não há uma quantia de droga especifica na lei para diferenciar usuários de traficante. Logo, quem decide é o delegado e adivinha só qual a decisão tomada quando o usuário é periférico? Na dúvida, não existe benefício para preto e pobre.

Um rapaz negro, sem emprego formal, à noite em um bairro de periferia, certamente será enquadrado como traficante independentemente da quantia de droga que tenha no bolso.

A lei de combate às drogas é um cheque em branco para o agente de segurança prender pessoas vulneráveis e julgar pobres, favelados e negros como traficantes, não como usuários.


A proibição

Hoje sabemos que a proibição mantém uma política de guerra, e como qualquer outra guerra, é uma política que mata.

A violência em torno das drogas só existe porque o mercado é ilegal. Não existe violência na produção e comércio de álcool e tabaco, por exemplo. E a grande diferença entre a produção e comércio de drogas lícitas e ilícitas está na legalização.

Com a guerra às drogas o Estado diz pretender preservar a saúde e diminuir a violência urbana, mas este é um outro paradoxo, afinal, em um mercado ilegal não há controle algum sobre a qualidade dos produtos. Também não se tem controle algum sobre quem vende e quem usa. Os maiores danos a saúde são causados pela proibição.

É dever do Estado educar sua população, conscietizar os jovens a respeito de seus malefícios e tratar os viciados como um problema de saúde e não de segurança pública. Por fim, investir em políticas públicas que ofereçam educação e oportunidade a todos.

Conheça a história da maconha no Brasil e no mundo!

Veja +
() Comente pelo Facebook